Três coletivos de blocos de rua do carnaval paulistano divulgaram uma nota na tarde desta quinta-feira (14) em que criticam a decisão da Prefeitura de São Paulo de cancelar o Esquenta de Carnaval e dizem que alguns blocos manterão os desfiles neste fim de semana.
A prefeitura decidiu cancelar o carnaval de rua previsto para os dias 16 e 17 de julho por falta de interessados em patrocinar a festa mesmo após dois editais.
O Esquenta de Carnaval foi proposto como uma prévia para o carnaval de 2023, já que, oficialmente, a capital não teve a tradicional festa de rua. As datas foram escolhidas em abril. Em janeiro, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) havia carnaval de rua devido ao avanço da pandemia de Covid-19.
De acordo com os coletivos, o carnaval de julho "foi uma tentativa velada da gestão municipal em coibir os cortejos carnavalescos livres e democráticos de abril", data na qual as escolas de samba desfilaram.
Eles afirmaram que a decisão não os surpreendeu e que "falta diálogo, confiança, coragem, sensibilidade e imaginação" à gestão municipal (leia a nota completa no final desta reportagem).
A nota foi assinada pelos coletivos Arrastão dos Blocos, Comissão Feminina do Carnaval de Rua e Fórum dos Blocos.
"O 'Esquenta de Carnaval', como ficou conhecido o CarnaJulho, agora cancelado, entra para a longa lista de demonstrações de descaso com o setor do carnaval de rua demonstrados pela Secretaria Municipal de Cultura. Mesmo assim, reiteramos que quem cancela o Carnaval não é a ausência de empresa patrocinadora. O Carnaval se faz no momento que pessoas se reúnem na rua pública para brincar, batucar, cantar e serem felizes. Blocos em arranjos diversos vão sair em julho, nos dias 16 e 17, exercendo seu direito legitimo de manifestação cultural garantido pela Constituição."
Os coletivos de blocos afirmaram ainda que souberam do cancelamento da festividade pela imprensa e que o cancelamento causou transtorno aos blocos que já estavam na preparação e contratação de fornecedores.
Além disso, eles reclamam do Guia de Regras do carnaval fora de época "com riscos imensos de penalizações, inclusive de proibição (inconstitucional) de desfile no carnaval de 2023" e pedem mais diálogo com a prefeitura.
"Exigimos diálogo real, porque é somente com este que a confiança poderá ser reestabelecida. O tempo é urgente, os desafios são enormes. No entanto, o Carnaval de rua da cidade de São Paulo é imenso, não só na sua grandeza de números, mas no que realmente importa, na diversidade de pessoas, de sabedorias, de brincadeiras, de ritmos, de afetos e na pluralidade de sua imaginação. Este é nosso maior legado e maior trunfo. Cabe à gestão pública, à Secretaria Municipal de Cultura, o mínimo: construir a política pública de maneira democrática, respeitando a pluralidade do carnaval de rua."
Em nota, a prefeitura reafirmou que o cancelamento do Esquenta Carnaval 2022 se deu por falta de patrocínio. "A iniciativa veio para atender a um pedido da sociedade para a realização de um carnaval fora de época, após o cancelamento do Carnaval de Rua devido à pandemia. O planejamento contou com diversas reuniões com representantes de blocos carnavalescos, com o intuito de chegar a um modelo viável, em curto espaço de tempo, para atender ao desejo da população de celebrar uma das mais importantes festas populares da cultura brasileira neste momento de retomada de grandes eventos", afirma.
O comunicado diz ainda que a secretaria "compreende o exercício da livre manifestação popular e o carnaval de rua". "E que, através de diálogo com os representantes de blocos, estará organizando o Carnaval 2023. Será formada uma comissão representativa com os blocos de rua para que, no próximo ano, o evento seja o maior e melhor Carnaval de Rua da história."
Sem patrocínio
O Esquenta de Carnaval estava marcado para 16 e 17 de julho. O primeiro pregão foi feito em 24 de junho e não teve interessados. A prefeitura baixou o lance inicial de R$ 10 milhões para R$ 6 milhões, e Nunes afirmou que não irá investir dinheiro público no evento.
"Não teve patrocínio, não tem emenda parlamentar, eu não vou usar dinheiro público para realizar o carnaval nesta época, fora de época."
Em nota, o grupo Ocupa Carnaval, que representa uma série de blocos que pretendiam desfilar no carnaval fora de época, criticou a decisão da prefeitura.
O coletivo disse que a gestão municipal havia se comprometido a financiar o evento com recursos próprios.
"A prefeitura tomou nosso tempo com reuniões, a secretária afirmou que caso não houvesse investimento privado a prefeitura arcaria com o custo do evento, no entanto, mais uma vez somos deixados à deriva, sendo informados via mídia", disse o grupo, em nota.
Em entrevista no último mês, Nunes reiterou que só não vai investir na festa agora porque se trata de uma situação específica em que a data da festa é "extraordinária".
Segundo Nunes, no ano que vem a prefeitura poderá colocar recursos para a organização do evento, caso seja necessário.
"Mas para tranquilizar os blocos: se lá em fevereiro, a gente fizer o chamamento, que aí é a data ordinária, que está no calendário, e faltar patrocínio, que eu não acredito, mas se eventualmente faltar, aí a prefeitura evidentemente vai arcar."
Segundo a Secretaria Municipal da Cultura, foram recebidos 296 pedidos de inscrição de blocos, e, após eliminar duplicidades de cadastro e solicitações consideradas incompletas, restaram 216 blocos.
Íntegra da nota dos coletivos
"Ficamos sabendo no fim da semana passada, do cancelamento do Carnaval de julho, devido a ausência de empresa patrocinadora disposta a arcar com recursos para a festa. Esta notícia nos atinge com grande pesar, mas não nos surpreende. O Carnaval de julho que seria realizado nos próximos dias 16 e 17 de julho foi uma tentativa velada da gestão municipal em coibir os cortejos carnavalescos livres e democráticos de abril, data na qual as escolas de samba também desfilaram. O "Esquenta de Carnaval", como ficou conhecido o CarnaJulho, agora cancelado, entra para longa lista de demonstrações de descaso com o setor do carnaval de rua demonstrados pela Secretaria Municipal de Cultura.
Mesmo assim, reiteramos que quem cancela o Carnaval não é a ausência de empresa patrocinadora. O Carnaval se faz ao momento que pessoas se reúnem na rua pública para brincar, batucar, cantar e serem felizes. Blocos em arranjos diversos, vão sair em julho, nos dias 16 e 17, exercendo seu direito legitimo de manifestação cultural garantido pela constituição.
Falta diálogo. Soubemos do cancelamento da festividade pela mídia. Para os mais de 200 blocos cadastrados, nenhum e-mail sequer avisando do desfecho. Blocos que já estavam na preparação e contratação de fornecedores, que despenderam tempo, energia, expectativas e recursos são jogados novamente ao abandono e à falta de respeito.
Falta confiança. Na única reunião para tratar do tema, ocorrida dia 6 de junho, mais de um mês e meio depois da proposição do evento, a Secretaria Municipal de Cultura na figura de sua secretária Aline Torres, não conseguiu responder perguntas básicas da logística do evento e ainda afirmou que o Carnaval de julho seria realizado mesmo sem empresa patrocinadora. Temos o relato em vídeo, que foi justamente registrado porque a desconfiança já era uma premissa do encontro.
Se em abril, a Prefeitura tentou nos proibir, em julho, ela queria nos penalizar. O Guia de Regras do “Esquenta de Carnaval”, documento que a gestão do Carnaval encaminha aos blocos, é sem dúvida o ponto mais alto de um regramento que vem a cada ano mais encrudescido, com riscos imensos de penalizações, inclusive de proibição (inconstitucional) de desfile no carnaval de 2023.
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